O
que pensamos, como agimos, quem somos, se deve em grande parte à relação que estabelecemos
com o outro. Óbvio, e surpreendente ao
mesmo tempo!
Impressiona
o quanto essas relações nos definem. Existimos, de certa maneira, e damos vazão
a parcelas de nossas personalidades em função delas. “Sou, porque você é...”
Me
lembrei da história de um casal perdido em algum lugar do tempo. Duas pessoas
que, por razões que não vem ao caso, estavam destinadas a não permanecer
juntas, por mais que se amassem naquele momento e por mais que acreditassem
piamente no “pra sempre” e na invencibilidade daquele sentimento. Em uma noite
qualquer, eles olharam-se com tristeza, tentando vivenciar em minutos ou horas,
o que não poderiam viver ao longo de suas vidas. Um amor natimorto! Condenado a
não ser vivido, ou a ter uma morte precoce.
É
correto dizer que aquelas pessoas, que se contemplavam, com ternura e desespero,
e que diziam um para o outro que só existiam em função daquele sentimento, não
estavam mentindo. De fato, a forma como se relacionavam, em decorrência de suas
idiossincrasias, determinava algo novo, existente só porque cada um era
exatamente como era. Ambos choravam, lamentando uma vida que não aconteceria,
filhos que não nasceriam daquela relação.
Triste. A noite acabou e eles se
despediram, com pesar quase fúnebre. Mas acreditaram, talvez ingenuamente, que
o que sentiam sobreviveria às mudanças, às intempéries da vida. Como se fosse
mais especial que tantas outras coisas “especiais”.
Eles
se encontraram, tempos depois, em outra situação. Um deles ainda procurava no
outro a mesma pessoa de quem se despedira numa noite que ainda permanecia em
sua lembrança, mas não encontrou. Por mais que olhasse para o mesmo rosto
daquela noite, os mesmos olhos que também choraram e compartilharam aquela dor,
o fato era um só: Aquela pessoa não existia mais. Morrera, junto com o
sentimento que julgavam eterno, mas foi mesmo tão eterno quanto possível, tão
único quanto são as pessoas e suas ações.
Ele
então se deu conta que o casal que existiu um dia, e se abraçou com tristeza,
com o pesar de estarem fadados a viverem um sem o outro, nem mesmo viviam mais,
pois tudo o que fazia deles o que eram, estava no passado, enterrado e perdido
no espaço-tempo.
Logo
ele percebeu que trazia consigo não apenas um, mas dois fantasmas, não havia
mais substância, apenas a ideia pueril de uma paixão, e lamentou. Não por si
mesmo, não mais, já que ele próprio também havia se tornado outro, embora só
percebesse isso no instante em que suas expectativas não foram correspondidas, mas
lamentava por aqueles que se amaram e que temeram tanto pelo fim de tudo que os
definia naqueles dias, e nem poderiam prever que tudo aquilo, por mais forte,
incomensurável, perene e poderoso que parecesse, acabaria, como todo o
resto.
Pensou
consigo, olhou novamente para ela, incrédulo talvez, depois olhou para si mesmo
e, da mesma forma como não reconhecera naquele rosto a mulher que lhe jurara
amor eterno, não reconhecia nele próprio aquele que, na mesma noite, tentou
viver em instantes as alegrias de uma vida inteira. Aqueles, não importa quem
foram, já não viviam mais, ou numa perspectiva otimista ainda se encontram em
um determinado espaço congelado do tempo, se despedindo, numa espécie loop interminável que só existe, talvez,
na memória.
Refletiu,
pensou, e, com um misto de decepção e alívio, olhou para ela, a cumprimentou e
partiu com a ideia fixa de que até mesmo o “pra sempre” é efêmero.
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